Psicotropicus - Centro Brasileiro de Política de Drogas

sexta-feira, 22 de julho de 2016

MACONHA: MITOS E FATOS - UMA REVISÃO DAS PROVAS CIENTÍFICAS (MITO 2 e MITO 3)


Foram chamados de "Mitos" as ideias que circulam na mídia e em livros e textos científicos que serviram de base para a população mundial ter hoje uma compreensão equivocada a respeito da maconha. Os "Fatos" decorrem do estudo de uma extensa coletânea das provas científicas produzidas no século XX e em geral desmentem ou desconstroem cabalmente essas ideias que acabaram por marginalizar e criminalizar a cannabis, uma planta utilizada há milênios pelos seres vivos.

Na primeira postagem estão os textos iniciais e o MITO 1. Esta segunda postagem contém o MITO 2 "A maconha não tem nenhum valor medicinal", e o MITO 3 "A maconha tem grande poder de causar dependência". Em breve todos os capítulos estarão publicados.

O livro MACONHA: MITOS E FATOS – UMA REVISÃO DAS PROVAS CIENTÍFICAS é fruto de uma parceria entre a Drug Policy Alliance (DPA), que cedeu os direitos autorais, e a Psicotropicus, que traduziu, editou e lançou a obra em 2010.

O livro encontra-se traduzido em uma dezena de línguas e agora pode ser lido em português. Ele será totalmente disponibilizado neste blog e poderá ser livremente utilizado desde que citada a fonte. Após nome do livro e autores: "Traduzido e editado por Psicotropicus, 2010".



MITO 2

 A maconha não tem nenhum valor medicinal. Existem drogas mais seguras e eficazes disponíveis. Entre elas, uma versão sintética do THC, principal princípio ativo da maconha, que, nos Estados Unidos, é comercializado com o nome de Marinol.

“Não há provas da eficácia do uso de maconha na quimioterapia. Existem inúmeras drogas alternativas que dispensam qualquer necessidade de empreender pesquisas sobre o assunto.”1

“Fumar maconha não pode ser qualificado como remédio... A maconha como questão médica é uma campanha cuidadosamente orquestrada... por hippies mais velhos, advogados e usuários de maconha que estão pregando uma peça cruel em pessoas doentes e moribundas.”2

“Considerando-se os efeitos conhecidos da maconha sobre a memória de curto prazo, parece provável que ela prejudicaria... a capacidade do paciente de lembrar-se de tomar outros remédios... essenciais.”3

“O lobby em prol da droga explora o sofrimento de pacientes portadores de doenças crônicas... como parte de uma estratégia para legalizar a maconha para uso geral”4

“Não poderia haver pior mensagem para os jovens... Justamente quando a nação está se esforçando ao máximo para ensinar adolescentes a não consumir drogas psicoativas, estão lhes dizendo que a maconha [é um] remédio.”5

FATO 2

Foi demonstrado que a maconha é eficiente na redução dos enjoos provocados pela quimioterapia de pacientes com câncer, estimula o apetite em pacientes com AIDS e reduz a pressão intraocular em pessoas com glaucoma. Existe ainda prova apreciável de que a maconha reduz a espasticidade muscular em pacientes portadores de desordens neurológicas. Pode-se obter uma pílula de THC sintético com receita médica, mas para muitos pacientes não é tão eficaz quanto a maconha fumada. O THC puro pode também produzir maiores efeitos psicoativos colaterais desagradáveis do que a maconha fumada. Atualmente, muitas pessoas usam maconha como medicamento, a despeito da ilegalidade. Ao fazê-lo, estão se arriscando à detenção e prisão.

2
Maconha como medicamento

Os usos terapêuticos da maconha estão bem documentados na literatura científica moderna. Fumando maconha ou usando preparações orais de delta-9-THC (o principal ingrediente ativo da maconha), pesquisadores conduziram estudos controlados. Esses estudos demonstram a utilidade da maconha na redução da náusea e do vômito,6 no estímulo do apetite, na promoção de ganho de peso7 e na diminuição da pressão intraocular do glaucoma.8 Existe ainda prova de que a maconha fumada  e/ou o THC reduzem a espasticidade muscular das lesões da medula espinhal9 e da esclerose múltipla,10 e diminui os tremores nesses pacientes.11 Outros usos terapêuticos da maconha ainda não foram amplamente estudados. Contudo, pacientes e médicos têm relatado que a maconha fumada alivia as dores provocadas por enxaqueca, depressão, convulsões, insônia e dor crônica.12 O delta-9-THC é provavelmente responsável pela maioria dos efeitos terapêuticos da maconha, mas um dos outros componentes canabinoides da maconha – o canabidiol – parece ser útil como um anticonvulsivo.13 Outros canabinoides podem ainda vir a ter valor medicinal comprovado.
Nos Estados Unidos, o uso da maconha para fins medicinais é ilegal, pois a lei federal inclui a maconha no Anexo I, na categoria de drogas consideradas perigosas, altamente sujeitas a abuso e sem qualquer valor medicinal.14 Não obstante, desde a década de 1970, trinta e cinco legislaturas estaduais aprovaram leis que apoiam o uso medicinal da maconha.15 Em 1996, os eleitores da Califórnia e do Arizona aprovaram iniciativas eleitorais para a remoção das penalidades estaduais por posse de maconha para uso medicinal.16 Todavia, a lei federal impede que os estados tornem legal o fornecimento de maconha. Oito pessoas recebem maconha por meio de um programa federal de “uso compassivo”, que, em 1992, parou de admitir novos pacientes depois que diversos pedidos, a maior parte de pacientes de AIDS, aumentou consideravelmente.17 Milhares de americanos usam ilegalmente a maconha como medicamento, arriscando-se a serem detidos e processados.18 Sem dúvida, outros que poderiam se beneficiar com a maconha são impedidos por sua ilegalidade.
Desde 1986, o THC sintético (Marinol) está disponível como droga do Anexo II, o que permite aos médicos prescrevê-lo, sob condições estritamente regulamentadas. O Marinol é oficialmente classificado como antinauseante e estimulante do apetite, mas os médicos também podem prescrevê-lo para outras doenças, como depressão e espasticidade muscular. Essa preparação oral do THC, dissolvida em óleo de gergelim, funciona para alguns pacientes. Entretanto, muitos acham que a maconha fumada  é mais eficaz. Para pessoas que sofrem de náusea e vômito, que não conseguem engolir e segurar uma pílula no estômago, fumar maconha é muitas vezes a única maneira confiável de prover THC. Para pacientes nauseados, fumar maconha tem a vantagem adicional da liberação rápida do THC, promovendo alívio em poucos minutos, em comparação com uma hora ou mais a partir da ingestão do THC.19
Fumar maconha não apenas libera o THC na corrente sanguínea mais rapidamente do que a ingestão do Marinol, como fornece a maior parte do THC inalado. Quando o Marinol é engolido, precisa se mover do estômago para o intestino delgado antes de ser absorvido pela corrente sanguínea. Após a absorção, o THC consumido por via oral passa imediatamente pelo fígado, onde uma proporção significativa é metabolizada em outras substâncias químicas. Devido ao metabolismo do fígado, 90 por cento ou mais do THC ingerido nunca atinge locais de atividade no corpo.20 Duas horas após a ingestão de 10 a 15 mg de Marinol, 84 por cento das pessoas em um estudo recente não apresentavam THC mensurável no sangue. Após seis horas, 57 por cento ainda não apresentavam nada.21 Em contraste, 2 a 5 mg de THC consumidos por inalação produzem regularmente concentrações no sangue acima do nível efetivo, em poucos minutos.22
Quando o THC é engolido, os efeitos variam de forma considerável, tanto de uma pessoa para outra, quanto na mesma pessoa de um episódio para outro.23 E como o início do efeito demora uma hora ou mais, pacientes que usam Marinol têm dificuldade para encontrar a dose eficaz. Quando o THC é ingerido, os efeitos duram mais – até seis horas, comparados a uma ou duas horas quando a maconha é fumada.24 Em outras palavras, fumar maconha é uma rota mais flexível para a administração do que sua ingestão. O ato de fumar maconha permite aos pacientes ajustar as doses, para coincidir com o aumento e a diminuição dos sintomas.25 Para pessoas que sofrem de náusea e vômito decorrentes da AIDS ou de quimioterapia de câncer, a maconha fumada  proporciona um alívio rápido com doses geralmente menores de THC.
Outro problema com o THC ingerido é que os efeitos colaterais psicoativos podem ser mais intensos do que os decorrentes de fumar a maconha. Quando o fígado metaboliza o THC, produz o metabolito 11-hidróxi-THC, um composto de igual ou maior psicoatividade.26 Uma quantidade de 11-hidróxi-THC é produzida quando a maconha é fumada, mas sua concentração raramente atinge níveis psicoativos.27 Com a ingestão oral, os pacientes experimentam efeitos psicoativos do THC e do 11-hidróxi-THC,28 aumentando a probabilidade de reações psicológicas adversas (ver Capítulo 10). Há também evidências de que um dos outros canabinoides da maconha – o canabidiol – modula as propriedades psicoativas da maconha.29 Em um estudo com pacientes idosos, a dose elevada de THC oral necessária para a redução da náusea e do vômito produziu efeitos psicoativos graves, reduzindo sua utilidade como medicamento.30
Em função desses problemas, não é surpreendente que médicos raramente prescrevam o Marinol. Em um estudo, pesquisadores pediram a oncologistas (especialistas em câncer) que classificassem a eficácia das medicações disponíveis para o tratamento da náusea e do vômito provocados pela quimioterapia do câncer. Classificaram o THC (na forma natural ou sintética) em nono lugar, representando apenas 2 por cento das prescrições antieméticas.31 Em outro estudo, 49 por cento dos oncologistas relataram ter receitado Marinol, mas somente 5 por cento o haviam prescrito mais de dez vezes.32 Uma pesquisa de 1990 pediu a oncologistas que comparassem a eficácia do Marinol e da maconha fumada. Somente 28 por cento sentiam-se suficientemente familiarizados com ambas as drogas para responder à pergunta. Dentre esses, somente 13 por cento acreditavam que o Marinol era melhor; 43 por cento acreditavam que as duas formas de THC eram igualmente eficazes, e 44 por cento acreditavam que a maconha fumada  era melhor. Quatrocentos e trinta e dois oncologistas (44 por cento daqueles que devolveram o questionário) afirmaram que haviam recomendado maconha inalada a pelo menos um de seus pacientes com câncer.33 Em uma pesquisa de 1994, 12 por cento dos oncologistas disseram que haviam recomendado maconha inalada e 30 por cento disseram que poderiam prescrevê-la, se fosse legal.34
Fumar é uma forma muito peculiar de administrar uma droga. Muitas drogas poderiam ser fumadas, mas não há uma boa razão para fazê-lo, porque as preparações orais produzem concentrações adequadas no sangue. Com o THC, esse não é o caso. A inalação é um modo melhor de administração do que a ingestão. Tem eficiência quase igual à da injeção intravenosa, e é muito mais prática.35
Além de sua ilegalidade, o principal inconveniente de fumar maconha é ela depositar substâncias que irritam os pulmões. O consumo prolongado de doses elevadas pode causar problemas pulmonares (ver Capítulo 15). Entretanto, se consumida por pouco tempo, o risco de dano pulmonar é pequeno. Para pacientes terminais, o dano potencial de fumar tem poucas consequências. Outros sistemas de liberação de THC – por exemplo, supositórios36 e sprays de aerosol37 – não tiveram eficácia comprovada, mas deveriam ser melhor estudados. Dadas as opções atualmente disponíveis, fumar maconha é o modo mais eficiente de liberar THC. É também potencialmente o mais barato. Um paciente que tome 20 mg de Marinol por dia gastaria 600 dólares ou mais por mês com esse  medicamento. Com a remoção do “imposto do mercado negro” sobre a maconha, preparados da planta poderiam ser entregues a pacientes por uma fração do custo do Marinol.
Na década de 1970, o governo federal patrocinou uma pesquisa sobre os usos terapêuticos da maconha38 e a forneceu a pesquisadores qualificados.39 Estabeleceu ainda um programa de “uso compassivo”, através do qual os pacientes, escolhidos caso a caso, poderiam obtê-la da plantação de maconha do governo, no Mississipi.40 Em seu relatório “Maconha e Saúde” (Marijuana and Health) de 1976 ao Congresso, o Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas (NIDA, na sigla em inglês) recomendava uma maior exploração dos usos medicinais da maconha.41 Os dois relatórios seguintes do NIDA, em 1977 e 1980, reiteravam essa posição.42
A eleição de Ronald Reagan para a presidência, em 1980, trouxe uma guerra renovada contra a maconha43 e o fim do apoio federal à maconha medicinal. O relatório “Maconha e Saúde” de 1982 do NIDA ao Congresso, reverteu a posição anterior. Advertia que “os efeitos negativos da maconha sobre a saúde” diminuíam seu potencial terapêutico, e sugeria que, em seu lugar, "análogos sintéticos de derivados da maconha deveriam ser pesquisados”.44
A oposição à maconha medicinal continuou sob a administração Bush. Em 1989, o diretor da Agência de Repressão às Drogas (Drug Enforcement Agency - DEA), John Lawn, indeferiu um pedido da Organização Nacional para a Reforma das Leis sobre a Maconha (National Organization for Reform of Marijuana Laws - NORML) para a reclassificação da maconha como droga do Anexo II.45 Essa alteração permitiria que médicos receitassem maconha sob as regulamentações estritas atualmente aplicadas à anfetamina, morfina e cocaína. Lawn indeferiu o pedido a despeito da recomendação de reclassificação do próprio juiz administrativo do DEA, Francis L. Young. Depois de rever a prova, o Juiz Young concluiu, não só que a utilidade médica da maconha tinha sido adequadamente demonstrada, mas que havia sido provado que a cannabis era “uma das substâncias terapeuticamente ativas mais seguras conhecidas pelo homem”.46 O Tribunal de Apelação dos Estados Unidos confirmou a autoridade legal do administrador do DEA para ignorar a decisão do Juiz Young.47 Atualmente, a maconha permanece no Anexo I, uma categoria de drogas consideradas perigosas, altamente sujeitas ao abuso, e sem qualquer valor medicinal.48
Em 1992, o governo Bush acabou com o programa de uso compassivo49 e o governo Clinton, depois de alguma resistência, decidiu não restabelecê-lo.50 O DEA continua a se opor a qualquer alteração legal que possa tornar a maconha disponível como medicamento51 e opõe-se mesmo à continuação da pesquisa sobre o assunto.52 Em mais de uma década, não houve qualquer estudo patrocinado pelo governo sobre a utilidade médica da maconha. Quando o Dr. Donald Abrams, pesquisador de AIDS, propôs uma comparação da eficácia do Marinol com a da maconha fumada  no tratamento da síndrome degenerativa relacionada com a AIDS, o NIDA negou-lhe acesso à provisão de maconha – a despeito do fato de seu estudo ter recebido a aprovação prévia do Departamento de Alimentos e Drogas (Food and Drugs Administration – FDA, equivalente no Brasil à Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA).53 Em 1996, o governo Clinton se opôs a iniciativas eleitorais na Califórnia e no Arizona para a legalização da maconha para uso clínico.54 Depois de promulgadas ambas as iniciativas, funcionários federais ameaçaram processar médicos criminalmente ou cassar suas licenças para prescrever substâncias controladas – simplesmente por recomendarem maconha fumada  a seus pacientes.55
Diversas organizações antidrogas contestaram a legalização da maconha para uso medicinal, afirmando que qualquer alteração da lei enviaria a “mensagem errada” para a juventude sobre os perigos da maconha.56 A maioria das associações formais de médicos não tomaram uma posição oficial sobre a maconha medicinal.57 Contudo, a posição estritamente proibitiva do governo federal sofre oposição da American Public Health Association,58 da Federation of American Scientists,59 da Physicians Association for AIDS Care, da Lymphoma Foundation of America,60 e da ex-ministra da saúde Joycelyn Elders,61 assim como de associações nacionais de promotores62 e de defensores criminais63. O New England Journal of Medicine tomou partido em apoio à permissão do uso da maconha como medicamento,64 e o Journal of the American Medical Association publicou um editorial encomendado com a mesma mensagem.65 Os corpos editoriais de diversos jornais insistiram junto à administração Clinton para que afrouxasse as restrições atuais66 – um ponto de vista que pesquisas de opinião recentes demonstram ter o apoio da maioria dos americanos.67
Desafiando a lei em vigor, pessoas no país inteiro consomem maconha para fins medicinais. Algumas o fazem com conhecimento e aprovação de seu médico.68 Em função de a prática ser ilegal, a maioria dos pacientes usa a maconha para fins medicinais sem supervisão médica.69 A ilegalidade da maconha significa que os pacientes não podem ter a certeza de obter produtos padronizados livres de esporas de fungos – um problema crítico para pacientes com AIDS, que têm sistemas imunológicos fragilizados (ver Capítulo 14). Em algumas cidades, formaram-se “clubes de compradores de cannabis” para o fornecimento de produtos não-contaminados a pacientes.70 Contudo, na maior parte do país os pacientes têm de confiar no mercado ilícito que distribui maconha de potência e pureza desconhecidas. A reclassificação da maconha como medicamento do Anexo II e a criação de um sistema legal para sua distribuição garantiria a todos os pacientes o acesso a uma maconha pura e padronizada.
Para uma nova aprovação da droga, o Departamento de Alimentos e Drogas (FDA, na sigla em inglês) exige “prova substancial” de eficácia, baseada em “pesquisas clínicas adequadas e bem controladas”, além de prova da toxicidade limitada da droga, quando usada em doses terapêuticas.71 A maconha fumada possui esse padrão. Com base em resenha de vinte e cinco anos de pesquisa, o farmacologista Roger Pertwee concluiu que “não há provas para sugerir que os canabinoides psicotrópicos (ou cannabis) sejam especialmente perigosos ou que seus efeitos adversos sejam mais graves ou inaceitáveis do que aqueles de muitas drogas usadas clinicamente na atualidade”.72
De forma relevante, a aprovação prévia do FDA para o THC oral é uma prova da eficácia da maconha no tratamento da náusea, do vômito e do desgaste relacionado à AIDS. Os poucos estudos que compararam diretamente as duas formas de liberação do THC demonstram que a maconha fumada  é mais eficaz do que sua administração oral.73 De qualquer modo, a questão não é se a maconha é melhor do que a medicação existente. Para muitas condições médicas, estão disponíveis diversos medicamentos; alguns funcionam melhor em determinados pacientes e alguns que produzem efeitos melhores em outros. A disponibilidade do maior número possível de medicamentos eficazes permite aos médicos proporcionar o melhor tratamento possível a pacientes individuais.
Foi a política e não a ciência médica que se interpôs no caminho da aprovação da maconha como medicamento legal. Em carta de 1982 endereçada ao Journal of the American Medical Association, o parlamentar Newt Gingrich escreveu que a “proibição federal desatualizada” da maconha medicinal estava “corrompendo a intenção das leis estatais e privando milhares de pacientes portadores de glaucoma e de câncer da assistência médica a eles prometida por suas legislaturas estaduais”. Segundo Gingrich, “a histeria... sobre abuso social da maconha” e a “interferência burocrática” do governo federal impediram “uma verificação factual [e] equilibrada do uso medicinal da maconha”.74 Quinze anos depois, essa observação ainda é válida.


MITO 3 

A maconha tem grande poder de causar dependência. Usuários que fumam há muito tempo sofrem de dependência física e síndrome de abstinência e, em geral, necessitam de tratamento profissional para romper o hábito.

“Existe uma demanda de tratamento específico para a maconha que atualmente não é suprida. A dependência de maconha não é um desafio menor comparada com outras dependências, como muita gente pensa.”1

“A maconha pode se tornar um sério empecilho para quem fuma há muito tempo e deseja parar.”2

“Estudos revelam que pessoas que fumam maconha há muito tempo podem desenvolver sinais e sintomas de síndrome de abstinência, se pararem de usar de uma hora para outra.”3

“Em 1993, mais de 100.000 pessoas que ingressaram em programas de tratamento de drogas relataram que a maconha era a principal droga que usavam, demonstrando que necessitavam de ajuda para parar.”4

FATO 3

A maioria das pessoas que fuma maconha fuma apenas de forma ocasional. Uma pequena minoria de americanos – menos de 1 por cento – fuma maconha todos os dias ou quase todos os dias. Uma minoria ainda menor desenvolve dependência de maconha. Algumas pessoas que fumam muito e a toda hora param de fumar sem dificuldade. Outros buscam ajuda profissional. A maconha não causa dependência física. Se a pessoa chegar a sofrer alguma síndrome de abstinência, serão sintomas notadamente brandos.

3
Maconha e dependência

Pesquisas epidemiológicas indicam que a grande maioria das pessoas que experimenta maconha não passa a usá-la frequentemente nem por muito tempo. Um estudo com adultos na faixa dos trinta anos, que tinham sido primeiramente entrevistados no ensino médio, acusou um alto “índice de descontinuidade” do uso de maconha. Entre os que haviam experimentado maconha, 75 por cento não a tinham usado no ano anterior e 85 por cento não a tinham usado no mês anterior.5 Em 1994, entre americanos com doze anos ou mais de idade, 31 por cento já haviam usado maconha em algum período de sua vida. Onze por cento a haviam usado no ano anterior e 2,5 por cento usara em média uma vez por semana ou mais. Atualmente, apenas 0,8 por cento dos americanos fumam maconha diária ou quase diariamente.6
Algumas pessoas fumam maconha regularmente durante vários anos sem quaisquer consequências físicas, psicológicas ou sociais adversas.7 Em algum momento, muitos que fumam muito e frequentemente decidem reduzir seu consumo ou parar completamente de consumir maconha. Para a maioria, esse processo parece relativamente simples. Por exemplo, um estudo investigou homens entre 28 e 29 anos de idade que haviam fumado maconha diariamente em algum momento da década anterior. Na época da pesquisa, 85 por cento não mais consumiam maconha diariamente, apesar de a maioria continuar a usá-la de vez em quando.8
Algumas pessoas que fumam muita maconha com frequência acham o processo de redução ou cessação mais difícil, e outras buscam assistência junto a serviços de tratamento de dependência.9 Houve um aumento recente na quantidade de pessoas que começa um tratamento com diagnóstico inicial de dependência de maconha.10 Entretanto, a maioria dos usuários de maconha inscrita em programas de tratamento de dependência é de pessoas que abusam de várias drogas, e que também apresentam problemas com álcool, cocaína, anfetaminas, tranquilizantes ou heroína.11
Estudos conduzidos por várias décadas numa variedade de condições constataram que, quando usuários que consomem muita maconha deixam de usá-la, raramente apresentam sintomas de síndrome de abstinência.12 Quando estes ocorrem, tendem a ser “moderados e passageiros”.13 Em estudo realizado no Federal Narcotics Hospital em Lexington, Kentucky, na década de 1960, dez homens foram mantidos “sob efeito”, fumando ao menos um cigarro de maconha a cada hora em que estavam acordados, durante trinta dias. Após a cessação abrupta da queimação de fumo, não houve prova de sintomas de síndrome de abstinência.14 Em outro estudo, doses orais muito altas de THC foram ministradas diariamente em pessoas, durante trinta dias. Quando cessou a aplicação da droga, elas se queixaram um pouco de inquietação, distúrbios no sono, náusea, diminuição de apetite e sudorese.15 Em pesquisa recente, 16 por cento de usuários de altas doses de maconha relataram alguns sintomas de síndrome de abstinência ao abandonar o hábito, sendo mais comum o nervosismo e os distúrbios do sono.16
Em alguns estudos com animais, altas doses de THC ministradas por via intravenosa e em seguida interrompidas abruptamente, produzem alteração comportamental, inclusive aumento da agressividade e da atividade motora. Entretanto, por mais que se injete THC em animais, quando acaba, os animais não podem se autoadministrar.17 Em estudo recente, pesquisadores precipitaram sintomas físicos mais pronunciados de síndrome de abstinência em ratos. Introduziram altas doses de THC continuamente nos ratos durante quatro dias e, então, administraram uma “droga bloqueadora” canabinoide, que bloqueia imediatamente os receptores do THC.18 Esse estudo com roedores patrocinado pelo NIDA sobre “precipitação dos sintomas de síndrome de abstinência” é agora citado como prova de que a maconha causa dependência física.19 Na verdade, não tem relevância para usuários de maconha que, após a cessação do uso, sempre experimentam a separação gradual de THC dos receptores.
Apesar de as pessoas desenvolverem dependência de maconha, um relatório de 1991, do Department of Health and Human Services dos Estados Unidos para o Congresso afirma que:
“Devido à grande população de usuários de maconha e poucos relatórios de problemas médicos decorrentes da cessação do uso, a tolerância e a dependência [da maconha] não são assuntos de grande importância, no momento.”20
Recentemente, os farmacologistas Jack Henningfield e Neal Benowitz, independentemente, classificaram o potencial de dependência de seis drogas psicoativas: cafeína, nicotina, álcool, heroína, cocaína e maconha. Ambos classificaram a cafeína e a maconha como as duas menos propícias a causar dependência. Henningfield classificou as duas drogas de modo idêntico e Benowitz classificou a maconha como um pouco menos propícia à dependência do que a cafeína. 21
No entanto, o número de pessoas diagnosticadas como dependentes de maconha e o número de usuários de maconha inscritos em programas de tratamento de dependência têm aumentado de modo constante. Utilizando a lista de critérios para dependência de drogas da American Psychiatric Association (APA), pesquisadores que avaliaram usuários de maconha em amostras de comunidade diagnosticaram até 25 por cento como dependentes de maconha.22 Os provedores de tratamento de dependência Norman Miller e Mark Gold reivindicam que, em função dos sintomas da dependência da maconha serem, “frequentemente sutis e difíceis de identificar”, os usuários de maconha deveriam ser diagnosticados como dependentes, mesmo que não estejam dentro dos padrões da APA.23 Gold defende que “é importante tratar todos os casos de consumo de maconha como potencialmente propícios à dependência”.24.
A maioria dos artigos e livros recentes que alertam sobre o problema crescente da dependência de maconha foi escrita por provedores de tratamento de dependência.25 Este grupo também se beneficiou muito com a expansão dos serviços de tratamento a usuários de maconha, muitos dos quais são pressionados ou forçados ao tratamento pelos pais ou outros parentes, tribunais ou empregadores.26 A maior parte dos operários que tem resultado positivo em programas de teste no local de trabalho é usuária de maconha,27 e muitos usam maconha apenas ocasionalmente. Os empregadores geralmente exigem que os operários participem de programas de tratamento de dependência como condição para o emprego fixo. 28 Esses programas diagnosticam os usuários de maconha como “dependentes de maconha” mesmo que não atinjam os critérios oficiais de dependência de drogas.

publicado aqui por Luiz Paulo Guanabara

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